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27/02/2008

O meu deus não é menor

Não sou dogmática, mas tenho as minhas crenças. Nunca aderi a «ismos» por me parecer que restringem e aprisionam a nossa liberdade, confinando-nos ao facciosismo de um único modelo de pensamento, por mais amplo que possa parecer. Para crescer é preciso ter liberdade e a liberdade não tem regras. A liberdade tem a sua essência no amor e por isso não existe se for carente de verdade, de respeito, de responsabilidade. Estes são atributos de quem é livre, mas não podem ser regras já que, em última análise, toda a regra tem excepção. Mas os atributos de quem é livre são a própria essência desse estado e, portanto, imutáveis.
Tenho de facto as minhas crenças. Elas resultam da observação da vida e da forma como tudo está interligado, da dinâmica causa-efeito das acções, da constatação de que nada acontece por acaso, da materialização dos nossos pensamentos, da manifestação dos sonhos e da existência de algo não palpável, não controlável, mas que é uma realidade que todos nós vivemos num outro plano que não o físico, e à qual muitas vezes se chama transcendência.
Não gosto muito dessa definição porque só por si é separativa, dá ideia de que é algo que está muito afastado do comum mortal e que este nunca alcançará porque é apenas privilégio de alguns espíritos aprimorados. E por isso, por não conseguir reconhecer a transcendência que há em si, o comum mortal não se motiva à descoberta, tem dificuldade em compreender e aceitar tudo aquilo que não faz parte da sua vida materializada no quotidiano.
Foi por isso que comecei a escrever “deus” com minúscula. Quando era miúda e o escrevia com maiúscula, sentia-o distante, tão longe e tão inacessível, que me fazia duvidar da possibilidade de poder interagir com ele. De igual modo, quando ouvia nas missas que ele estava lá em cima, no alto, no céu, eu pensava "ele devia era estar cá em baixo, que é onde faz falta". E por necessidade dessa proximidade comecei também a tratá-lo por tu, como um amigo chegado, e a rezar “pai nosso que estás no céu e também em mim”. E nunca o senti zangado comigo, antes pelo contrário, tenho sido alvo incansável das suas bençãos. Tirei-lhe o pedestal da maiúscula, mas não o fiz menor.

26/02/2008

Teatro inglês

Nos Lisbon Players está a decorrer o festival de one act plays. No próximo fim de semana ainda se poderão ver: "One for the Road", de Harold Pinter (1984), com encenação de Eduardo Ribeiro, "A Time for Farewells", de Damian Trasler (2003), com encenação de John Broughton, e "The Proposal", de Anton Chekhov (1889), com encenação de Pedro Ferreira.
Entrada gratuita.
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Rua da Estrela, 10 - Lisboa
Telef: 213961946

25/02/2008

O Silêncio é de Ouro

Por João César das Neves, in DN.

(...) Vivemos num mundo de espelhos, numa fogueira de ilusões. Consideramo-nos informados e esclarecidos mas nos assuntos sérios, opções estratégicas, problemas de fundo, novas infra-estruturas, escândalos empresariais, temos de admitir que ninguém se entende. Pior, a nossa vida é hoje agredida da forma mais violenta e boçal por aquilo que pretende divertir-nos. Não passaria pela cabeça de ninguém meter em casa os desconhecidos que encontra na rua. Mas à noite, na televisão, tudo o que vier é aceite obedientemente. Uma família pacata, num serão habitual, assiste a mais violência, crime, engano e miséria que uma aldeia medieval num ano de invasões bárbaras. Como viver numa sociedade assim? A única forma é enfrentá-la, como a um furacão: bem escorados nos valores e critérios básicos, escolhendo com cuidado as referências que nos guiam. Existe ainda um elemento importante, que uma das referências mais decisivas da actualidade acaba de formular. O Papa pediu há dias, no encontro quaresmal com o clero de Roma a 7 de Fevereiro, um "jejum de imagens e palavras". A sociedade mediática criou uma embriaguez de estímulos que embrulha e asfixia, manipula e embrutece. É preciso lidar com ela como com a poluição. Na era da informação é crucial lembrar que o silêncio é de ouro.

12 palavras-chave

Foi uma escolha demorada, mas ele lançou o repto e por isso aqui venho largar as minhas doze de muitas.
Corpos - vejo-os tão enleados que não os distingo, têm que estar no plural, corpos, para transmitir a força devoradora da entrega e da posse; Chapinhar - gosto do som onomatopeico da palavra, da evocação da água, da alegria inocente e candura que ela transporta; Carícia - palavra doce do sentir, sereno prazer de comungar o toque com outra pele; Langor - palavra per si lânguida e sensual, apela à lassidão, ao abandono, ao desejo de sexo; Dádiva - tem uma sonoridade profundamente espiritual que me fascina, como uma doação incondicional apenas possível a deus; Enamoramento - porque nos torna pertença de uma experiência única, numa dimensão mágica, quando nos deixamos ir em abandono para o outro e partimos à sua descoberta, sem limites e imbuídos da mais pura energia encantatória da amorosidade; Cheiros - são o perfume das vivências, abrem-me a porta dos sentidos, temperam memórias de momentos intensos; Sublime - palavra altíssima, eleva-me para o etéreo, para a inigualável perfeição, para a divindade; Lamber - prazeres deliciosos, os de lamber um gelado, um chupa-chupa, o prato de sobremesa depois de acabada, e o corpo de quem se ama; Dança - induz ao movimento, a cadências e ritmos estimulantes, liberta-me as tensões, dá-me noção e funde-me com o espaço que ocupo; Terra - dá-me confiança, os dois "r" guturais fazem-na forte, dão-lhe base de sustentação, como duas raízes bem fundas e consistentes; Amor - porque é uma palavra pequena e macia que diz tudo.

24/02/2008

Prece

A ti, deus em que acredito, te peço, propaga a tua chama dentro de mim, despe-me das dores que guardei para que saiba viver, um só momento que seja, tendo o seu amor como meu guia e nas suas mãos o meu amparo.

21/02/2008

Nó na garganta

Um quadrado
Quatro vértices que se relacionam amorosamente…
A ama B

B ama C
C, por sua vez, ama D
D ama A

Teatro de Carnide - 28 de Fevereiro a 5 de Abril - Quintas, Sextas e Sábados, 21:30
Informações e reservas: 934 496 107

Fim de semana em BLeza

18/02/2008

Pensando bem...

A escrita assim é o lugar dos meus despojos. Sempre que sinto esta emergência nauseada de escrever, sei que não estou tranquila. Porque é a tristeza que leva a reboque os meus dedos sobre o teclado, obrigando-os a macular folhas brancas com traduções dos meus vazios. Na escrita reflicto o meu corpo de dor.
Durante muito tempo a minha tristeza escreveu-se em mil poemas e textos. Pouco resta. Anos passados, deitei fora muitas gatafunhadas por me trazerem de volta memórias que não me faziam falta, emoções que me causavam repulsa e situações com as quais já não me identificava. Depois serenei.
De novo esta necessidade, em certa medida injusta, é verdadeira. Reacendeu-se. Quase por osmose, assim foi.
Lembro-me de uma vez me terem dito a escrita não é só luta, é alegria também.
Por isso fico por aqui. Não quero dar alento ao desalento.
Vou perder-me por aí um bocado a ver se me encontro.
Volto num dia de sol, é melhor...

Passa a outro e não ao mesmo

Com alguma frequência ocorre-me uma pequena história que retrata a forma como tantas vezes transferimos para os outros o peso do nosso sentimento de culpa (há alguns anos substituí, no meu discurso, culpa por responsabilidade, mas neste contexto a primeira tem mais propriedade), evitando dessa forma o confronto connosco mesmos e impedindo-nos de assumir honestamente a causa e consequência das nossas acções. A passagem da carga para outros ombros torna-nos leves, mas naturalmente atrofia o nosso processo de consciencialização. Uma vez liberta esquecemo-la prontamente, dando permissão a que os mesmos erros se repitam. Precisamos olhar para dentro, com olhos bem abertos.

Luís dava voltas e não conseguia dormir. A mulher, apercebendo-se da sua agitação, pergunta-lhe o porquê.
- Termina amanhã o prazo combinado para devolver o dinheiro que devo ao João, mas ainda nem o tenho!
Passado uns segundos levanta-se, abre a janela e grita:
- João!!! João!!!!
Do outro lado da rua abre-se uma janela:
- Que escandaleira é esta? O que se passa?
- É só para dizer que não vou pagar-te amanhã.
E fechando imediatamente a janela:
– Pronto, agora quem não dorme é ele!

16/02/2008

Amor

"Conselhos de um velho apaixonado"
de Carlos Drummond de Andrade

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso e se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d'água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficarem juntos chegar a apertar o coração, agradeça, algo do céu te mandou um presente divino: o Amor.
Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um para o outro.
Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.
Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado...
Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados...
Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite...
Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado... Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar louco por ela...
Se você preferir fechar os olhos antes de ver a outra partindo, é o amor que chegou na sua vida.
Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.
Às vezes encontram e por não prestarem atenção nesses sinais deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.
Por isso, preste atenção nos sinais. Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o Amor!

13/02/2008

O meu sonho de S. Valentim

Este ano vou realizar um pequeno sonho! Desde que se celebra o dia de S. Valentim, nunca o comemorei especialmente, ou sequer lhe fiz um apontamento com sentido. Simplesmente, porque “aquela” pessoa não existia na minha vida. E tal como este sonho, que aos olhos de muitos pode parecer patético, houve outros sonhos que fui adiando pela mesma razão: porque os quis partilhar com alguém especial. De tal forma adiei, que alguns já não poderei realizar...
Sim, este dia é apenas uma representação. Mas a nossa vida está cheia delas, os aniversários, os casamentos, os funerais, o Natal, a Páscoa, o Carnaval, o Santo António e mais uma dezena de santos, o dia do Pai, da Mãe, da Mulher, da Criança, da Árvore, os movimentos, revolucionários, sindicalistas, humanitários, etc., etc., etc. Mas são todas estas representações que nos dão sentido, nos posicionam numa comunidade, numa cultura, num universo, na nossa própria fantasia e motivação de vida.

Por isso este ano estou feliz por poder superar uma frustração, tenho alguém especial a quem dar um presente amanhã, no dia de S. Valentim.

12/02/2008

Ai que bom!

Tratado de Lisboa está disponível com o texto integral
O novo Tratado de Lisboa já está disponível em versão consolidada, isto é, com um único texto corrido, em vez do texto original, que consistia essencialmente na descrição das alterações que introduziu nos tratados em vigor que lhe deram origem.
in "O Público"
...
E quem é o/a simpático/a que me fará o favor de o ler e de me fazer um resuminho, que é para ver se é desta que fico com um bocadinho de conhecimento consolidado sobre o assunto?
Muito obrigadinho, sim?!

I love my quimboy!

10/02/2008

Curva da felicidade tem a forma de um U

m estudo que envolveu dois milhões de pessoas em 80 países, incluindo Portugal, constatou um padrão mundial extraordinariamente consistente nos níveis de depressão e felicidade que torna a meia-idade o período mais problemático da vida.

O trabalho, realizado por investigadores da Universidade de Warwick e do Dartmouth College, nos Estados Unidos, com o título "Terá o bem-estar a forma de U no ciclo da vida?", vai ser publicado na revista Social Science & Medicine, a publicação de ciências sociais mais citada em todo o mundo. Os cientistas constataram que os níveis de felicidade têm a forma curva de um U, com o ponto mais alto no início e final da vida e o mais baixo na meia-idade. Muitos estudos anteriores do decurso da vida sugeriam que o bem-estar psicológico se mantinha relativamente estável e consistente com o avançar da idade. Com base numa amostra de um milhão de pessoas no Reino Unido, os investigadores concluíram que os picos de depressão são mais prováveis por volta dos 44 anos, tanto nos homens como nas mulheres. Contudo, nos Estados Unidos encontraram uma diferença significativa nos dois géneros, com a infelicidade a atingir o pico por volta dos 40 anos na mulheres e dos 50 nos homens. Num total de 72 países em todos os continentes, o estudo constatou a mesma forma de U nos níveis de felicidade e satisfação com a vida por idade. Curva igual em todos os géneros e estratos sociais. Os dois autores, ambos economistas - os professores Andrew Oswald, da Universidade de Warwick e David Blanchflower, do Dartmouth College - consideram que o efeito da curva em U tem origem no interior dos seres humanos, já que encontraram sinais de depressão no meio da vida em todos os géneros de pessoas, independentemente de terem crianças em casa, de divórcios ou mudanças de emprego ou rendimento. «Algumas pessoas sofrem mais do que outras, mas os nossos dados indicam que o efeito médio é muito amplo. Acontece tanto a mulheres como a homens, ricos e pobres, com ou sem filhos», afirma Andrew Oswald, citado no site de informações científicas AlphaGalileo. «Ninguém sabe a causa desta consistência», referiu. «Para a pessoa média no mundo moderno, tanto a saúde mental como a felicidade chegam lentamente, não de repente num único ano», observou. «Só quando chega à casa dos 50» - acrescentou - «é que a maioria das pessoas deixa de ser susceptível à depressão. Mais tarde, aos 70, mantendo-se fisicamente em forma, as pessoas, em média, podem sentir-se tão felizes e mentalmente sãs como aos 20 anos». O estudo analisou informação sobre uma amostra aleatória de 500.000 norte-americanos e europeus ocidentais a partir do Inquérito Social Geral, nos Estados Unidos, e do Eurobarómetro. Os autores analisaram, também, os níveis de saúde mental de 16.000 europeus, os níveis de depressão e ansiedade numa larga amostra de cidadãos britânicos e dados do "World Values Survey", que contém amostras de pessoas de 80 países.

Explosão

Eu quero o absurdo e o absoluto. Quero tudo
Vou às apalpadelas, não vejo nada!
Não sei a direcção. Não tenho a luz.
Mas não estou quieta. Vou indo.
Vou tentando ir sem olhar muito para os lados nem para trás.
Às vezes não quero ver nem sentir. Quero fingir.
Quero ser poeta fingidor. (Aquele que tudo sente e tudo finge.)
Quero também cantar os poemas desse poeta em voz alta para todos ouvirem.
E não quero ser só mais uma. Quero ser mil ou muitos milhares. Quero ser estrela.
E quero que o mundo se verga, se dobre nos meus olhos.
E quero ver o sol nascer de mim.
Quero a imensidão de tudo o que foi dito e de tudo que nunca o será.
Porque é tudo tão grande, tão imensamente grande...!
que nem o cosmos tem tamanho para tamanha grandeza!
E aqui fico destroçando a minha mente nesta busca,
explodindo os meus neurónios em fogo de artifício
para todo o universo assistir...