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11/10/2012

Especismo


Quando eu falo em não matar e não comer animais, muitas pessoas argumentam equiparando-os a vegetais. Mas em consciência, sei que não acreditam que mamíferos, legumes, aves,  frutas, sejam idênticos. Um cão, um golfinho e um cavalo, não são confundíveis com uma banana, uma beterraba, ou orégãos. Da mesma forma que um ser humano não se confunde com um repolho. Os animais são seres sencientes; simplesmente não falam, nem raciocinam da mesma forma articulada como nós o fazemos. Mas isso não os faz inferiores nem disponíveis para o que quisermos fazer deles.
O que são seres sencientes? Seres que sentem dor e prazer psicofisiológicos, e emoções afins às humanas, possuindo também consciência, conforme a recente Declaração de Cambridge:  http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf
Seríamos capazes de comer uma vaca depois de termos tido uma conversa em que ela nos contava como tinha sido afastada da sua cria à nascença, e que a mesma tinha sido imediatamente morta só para que ela - vaca - continuasse a dar leite para os humanos beberem? Uma conversa faria uma grande diferença... E é por causa dessa mudez que nós temos que ser a sua voz.
Pelo facto de os animais não falarem, não acederem à internet e de não terem a capacidade de destruir o mundo, nem de usarem armas para se matarem uns aos outros - como os humanos - consideramo-nos superiores. Mas não somos superiores na inocência, nem na autenticidade, nem na capacidade de viver em comunhão com a natureza e os seus ciclos. Nem talvez sejamos assim tão inteligentes como pensamos - temos usado as nossas capacidades cognitivas de forma gananciosa e competitiva, trazendo destruição e conflito ao mundo. 
Mas talvez estejamos agora em posição de mudar os paradigmas e focalizar a nossa energia na pacificação, tentando ver com clareza de intenções em que medida as nossas crenças, hábitos e opções, contribuem para o que - em consciência - não queremos nem para nós, nem para o planeta.
Podemos ter passado uma vida inteira à margem destas questões – conduzidos pela cultura vigente sem a questionarmos – mas depois de despertamos, sentimos um impulso para a mudança que não nos permite voltar atrás.
Habitualmente não comemos cão, cavalo, ou gato, porque os consideramos especiais. Mas na verdade, estudos científicos provam que os porcos, carneiros, vacas, etc., são igualmente especiais e estão ao mesmo nível de inteligência e sensibilidade que os animais ditos "de estimação". E ao facto de certos animais não serem "estimados" e de comermos uns em detrimento de outros, chama-se especismo. É uma escolha selectiva baseada num julgamento de falsas premissas, porque na verdade não temos qualquer direito de julgar e decidir que uns animais são para matar e outros para amar. Nem tão pouco os animais nos dão essa opção, eles não nascem com etiquetas "comam-me" ou "amem-me". 
O especismo assenta no mesmo princípio em que se baseia o sexismo, o racismo, o fanatismo religioso, e tantos outros "ismos". É descriminação, separatividade, medo, dominação, abuso. Numa palavra, violência.
É nossa a opção do futuro.

17/03/2010

Coisas que não somos

Alguns meses antes de a minha mãe morrer (ainda nem estava diagnosticado o cancro), participei numa formação sobre estas questões e percebi de uma vez por todas como é importante falar da morte sem rodeios, sem considerar que é mórbido ou um assunto tabu. Sinceramente, perdi a tolerância para estas atitudes de "faz de conta".

Já aqui falei sobre isto. A minha mãe era uma pessoa muito activa e imaginativa, e em tudo quanto era folha de papel, blocos, agendas, caderninhos, escrevia projectos, histórias, pensamentos, experiências de vida... E coleccionava coisas de viagens, guardanapos, pratinhos, souvenirs. Guardava tudo. Esse apego é contagioso, porque quando alguém morre, quem fica apega-se a essas mesmas coisas, porque personifica nelas o ente querido, e é um grande sofrimento libertar-se delas. Por isso, entre outras coisas, pedi-lhe que organizasse a sua papelada, que deitasse fora o que era supérfluo, porque iria custar-nos muito decidir o que fazer-lhes, quando ela morresse.
Valeu-me o facto de ela ser uma pessoa sensível a estas questões, só não me valeu o curto tempo que teve para cumpri-las. Mas mesmo assim, alguma coisa foi feita e o simples facto de termos falado sobre o assunto deu-me maior liberdade de acção.

Olho à minha volta e vejo que estou perante um ambiente análogo. Papéis, recortes, canetas, revistas, chaves, fios, caixas cheias de tudo e de não sei quês... Ele identifica-se com as suas coisas como partes integrantes da sua identidade, o que, a meu ver, o leva à crença de que não pode viver sem elas, de que se sentirá desvinculado de si mesmo na sua ausência.
Como poderei então eu, algum dia, desapegar-me da sua identidade, do que ele é?
Quanto a mim, quando eu morrer pode ir tudo para o lixo, mesmo as coisas de que mais gosto. As coisas só valem pela utilidade que têm enquanto eu viver aqui, depois deixam de me ser úteis e não me revejo, nem me quero perpetuar nelas. O que fui, sou, está no que fiz, não no que tenho e nem sequer nas minhas palavras.

29/12/2008

O espírito da matéria

Não é novidade, mas de ano para ano cada vez o Natal me parece menos celebração e mais frustração, menos espiritualidade e mais materialismo.

E digo isto sem querer melindrar a prata da casa, que faz o possível por recriar no Natal o espírito que lhe é próprio, conferindo-lhe a dimensão religiosa de origem. E vergo-me, grata, a todos que desenvolvem iniciativas que dignificam esta quadro, já que eu, honestamente, gosto de saboreá-las mas a sua confecção não me estimula.

Falava eu de frustração e materialismo.
Há dias, na secção infantil do C.I. fiquei com a sensação de que estava rodeada por um batalhão de formigas desesperadamente à procura de provisões para se garantirem no Inverno.
As listas dos pedidos ao “pai Natal” nas mãos e a expressão de frustração nos rostos, porque muitas coisas já estavam esgotadas.
Alguém comentou em desabafo “meu Deus, se eu não conseguir encontrá-los noutro lado [os presentes], isto para ele nem vai ser Natal!”. Tentei ver o rosto do comentário para ver se percebia qual seria a interpretação correcta a dar à coisa, mas a confusão era grande. Fiquei apenas a pensar nesta tendência crescente de reduzir o Natal a um amontoado de papéis e laçarotes.

Quando eu e os meus irmãos éramos miúdos e acreditávamos no Pai Natal, pedíamos coisas aparentemente impossíveis de se conseguirem, mas os meus pais davam voltas e mais voltas (eu até acho que eles faziam milagres...) e na maior parte das vezes encontravam o que queríamos. Digamos que a taxa de sucesso andava à volta dos 90%, o que para a época era um feito!
Como os nossos mealheiros eram magros, nós é que fazíamos os presentes que dávamos aos pais, aos irmãos, aos tios, à avó, ou juntávamo-nos e comprávamos “a meias” o que era possível... Uma coisa é certa, lembro-me que sempre démos, ainda que simbolicamente.

Dar fazia parte do espírito.

Mas agora uma coisa me parece cada vez mais evidente: o Natal é assim como o 1 de Junho, o dia Mundial das Crianças, só que com mais luzes e ainda mais presentes.
E até me poderia parecer natural que os presentes diminuíssem na proporção em que a idade aumenta e que as crianças sejam as grandes beneficiárias do Natal (até porque a celebração é mesmo essa, o nascimento de Jesus), se eu não estivesse preocupadamente a aperceber-me da falta de reciprocidade, de que cada vez menos as crianças estão a ser estimuladas a dar e a colaborar (contrariamente à vida de dádiva que foi preconizada por Jesus), mas apenas a pedir e a receber.
E isto não é bom.