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17/02/2009

Meu limão, meu limoeiro...

meu pé de jacarandá,
uma vez tindôlêlê,
outra vez tindôlálá...

Em dias como hoje, quando abro a janela que dá para o quintal chega-me amornado pelo sol o aroma do limoeiro, perfumado e doce... Doce, como não é o seu fruto.
Inspiro-o longamente, sinto-o derramar-se em mim, envolvendo cada célula e, num repente, abrindo portas da memória.
A memória é celular, ensinaram-me.

E lá íamos nós, miúdos, com mil canções debaixo da língua, que a nossa mãe nos ensinava. Vínhamos a cantar desde Lisboa. Não importava se a viagem era curta ou longa, tínhamos esta fórmula mágica: cantávamos sempre porque assim não enjoávamos e o tempo passava mais depressa.

Era ali, naquela curva apertada do Arraçário, onde o carro quase parava para poder contorná-la, que os limoeiros nos esperaram sempre, leais e plácidos, ao longos dos anos.
Vínhamos desde lá de cima com aquela excitação infantil, alegre, ansiosa, e gritávamos “olh’ós limoeiros!”. Abríamos as janelas na descida, inalávamos aquele ar puro, abríamos bem as goelas e lançávamos a nossa cançoneta a plenos pulmões,

Meu limão, meu limoeiro,
meu pé de jacarandá,
uma vez
tindôlêlê,
outra vez tindôlálá...

O nosso pai abrandava a marcha e curvava lentamente, bem mais do que era necessário, para nos prolongar o tempo dos intermináveis encores. E depois ríamos, ríamos muito, todos.
Nunca soube exactamente o que era o tindôlêlê e o tindôlálá, m
as sei que nesses momentos éramos felizes.

16/09/2008

Dia do pai

86 anos. Órfão de avós, de pai, de mãe, de mulher, de primos, de tios, de amigos, de colegas. Pergunto-me de que tipo de massa será feito para ter sobrevivido a tantas perdas, tantos embates, tanto sofrimento, e continuar de pé, firme, íntegro, autónomo, saudável, equilibrado, sensato, lúcido, tão lúcido..., e tão humanista. E concluo que essa massa é o amor. Que o nutriu, que nos nutriu.
Também para si, querido pai, o meu amor e a minha gratidão.

30/01/2008

O destino andava de barco

Faz hoje 50 anos, conheceram-se; faz hoje 49 anos, casaram-se. Os meus pais. Também há muito, muito tempo, o “DN Jovem” premiou-me pelo texto onde falei desse encontro, dessa história de amor a bordo de um navio, fruto de uma grande conspiração do universo! Não tenho dúvidas de que este seria um argumento perfeito para um filme perspectivado na força transpessoal que nos conduz. Perco-me por vezes a fantasiar sobre as inúmeras coincidências que concorreram para que estas duas almas, uma portuguesa, a outra brasileira, se cruzassem naquele navio e encontrassem na Argentina o pano de fundo do romance das suas vidas. A minha mãe adorava a sua terra, a sua casa, a sua família. Não imaginava, jamais, que as pudesse deixar. Não, pelo menos, naquela época, em que o nosso Portugal, num estado de depressão neurótica pardacenta, onde a alegria era apenas uma palavra no dicionário, contrastava com aquele Brasil colorido e musicado, onde as senhoras já fumavam e andavam de calças compridas. Mas assim foi. E aqui lhes rendo esta pequena homenagem, a ele que decidiu ainda aqui ficar e a ela, que partiu, pela sua febre de voar. Um dia já escrevi, frágil não é quem parte buscando no porvir a sua liberdade; frágil é quem fica, lembrando o ausente em apertos de saudade.