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21/04/2010

Em lado nenhum

Quando eu era pequena tinha a capacidade natural de me ausentar do corpo se me sentia infeliz, ou se a vida não me estava a agradar. Deitava-me na cama, fechava os olhos e começava a observar-me respirar, como espectadora. Depois acontecia o clique, que eu não consigo explicar como era: observadora e observada separavam-se e lá estava eu do lado de fora, a ver o meu corpo deitado. Ficava ali a pairar numa outra dimensão e sentia-me tão serena! Pensava, 'já não é nada comigo, eu estou aqui, sossegada. Ali em baixo não sou eu, é outra coisa, uma cápsula'. Era assim que eu suportava a vida real, eu sabia que havia um outro lado.
Depois, também já não sei como, regressava a mim. Não adiantava não querer voltar; nesse movimento de retorno eu não tinha qualquer intervenção, quisesse ou não quisesse, eu era atraída em espiral para meu corpo.
Isso para mim era um processo natural e só muito mais tarde vim a saber que tem o nome de “saída de corpo” e que (porque os cientistas não o sabem explicar) é considerado um fenómeno paranormal (vulgo fantasioso, irreal e quiçá psicótico). Mas isso agora pouco interessa.


Tenho pena que agora já não se passe dessa maneira, que eu já não consiga evadir-me voluntariamente quando a vida me magoa e que, apesar do combate que lhe faço, a formação cartesiana ainda tenha o poder de sabotar processos intuitivos e naturais. Eu era mais feliz quando ficava a pairar, ou quando fazia viagens interestelares e me comunicava com seres superiores que me liam a alma, sabiam quem eu sou e me enchiam de uma energia muito forte chamada Amor. Eu tinha os canais abertos, sentia-me parte integrante do cosmos, sabia o meu verdadeiro nome, entrava na essência do meu ser.
Temo que seja um processo sem retorno, que tenha perdido a conexão, que a maturidade seja um lugar sem magia. Temo que nunca mais me volte a encontrar.

29/12/2009

Contacto


Baseado no livro com o mesmo nome, "Contacto", de Carl Sagan, de vez em quando revisita-nos no canal "Hollywood".

Carl Sagan foi um céptico levado ao extremo, como qualquer bom crente, eu diria. Sempre tive isto para mim, que os maiores cépticos são os que mais crêem mas têm um medo profundo da verdade que os sustenta intimamente. Desacreditam até não haver mais alternativas de negação, para que depois a verdade final seja irrefutável.
Quem conhece um pouco da sua obra sabe que, como cientista, ele nunca deixou cair o véu senão em "Contacto". O seu trabalho parece querer provar que aquilo de que suspeitava não tinha bases científicas comprovadas e por isso sempre o negou, ou melhor, nunca o confirmou.

Mas em "Contacto" ousou mostrar-nos o seu lado crente, personificado por Jodie Foster, também ela no papel de uma cientista céptica da sua própria experiência: "Por um lado tudo o que sei como ser humano me diz que sim, esta experiência pela qual passei é real. Mas como cientista, sou obrigada a reconhecer que não tenho quaisquer evidências que a possam validar".

Estava a referir-se à sua viagem cósmica e ao contacto alienígena. Fisicamente, não saiu da plataforma de lançamento, mas a sua mente, a sua consciência, seja o que for, viajou durante 18 horas pelo cosmos. É assim, dizem os estudiosos desta matéria, que somos contactados e viajamos pelo universo: através da mente. Sendo assim, como prová-lo efectivamente? É uma experiência pessoal, individual, como conseguir que seja credível senão pela nossa própria confirmação, pela nossa palavra?

No nosso micro-cosmos valem os papéis, as experiências laboratoriais, as provas materializadas. Mas as palavras que atestam uma experiência pessoal, imaterial, não.

Somos apenas um corpo animado por uma energia vital que se desagrega irreversivelmente no processo de morte. Grosso modo, o exemplo de uma lâmpada dá-me a metáfora. A energia não se vê, mas sabemos que se manifesta através da lâmpada e que continuará a existir mesmo que ela se funda. Por onde anda a circular essa energia quando não está a ser utilizada?
O facto de conhecermos todo o seu processo de captação e distribuição, faz com que a vejamos? Alguém alguma vez viu efectivamente a electricidade? Não. Apenas sabemos que existe pelos seus efeitos.
Porque será então que temos tanta dificudade em aceitar que enquanto dormimos, sonhamos, estamos inconscientes, a nossa energia possa circular por outras esferas às quais o corpo físico, pela sua densidade e materialidade, não pode aceder?
Acredito profundamente que o fazemos e sei intimamente que a beleza do universo é indescritível. Como ela no filme disse numa comoção contagiante: "Não há palavras, não há palavras... é pura poesia! Deviam ter enviado um poeta! É tão lindo, tão lindo!".


Para mim, esta é a maior mensagem de fé e de esperança que Sagan poderia deixar-nos.

22/10/2008

C.

C., hoje estive lá, naquele mesmo lugar. Como poderia não me relembrar de ti, da primeira vez que te vi? o corpo curvado, o roupão branco com um maço de tabaco no bolso, o pijama azul, os chinelos que te deram no check-in, o teu cabelo fino e comprido colado à testa e às têmporas pelo suor e esse teu olhar triste, de abandono, tombado sobre nós, que desde logo me cativou. Lembro o teu sorriso doce, a tua voz murmurada, o teu jeito tímido, os teus dedos amarelecidos pelos cigarros, o contentamento quando te davam alta e a tristeza quando te via regressar, porque sabia o que isso significava. Mas depois, a alegria que brilhava nos teus olhos quando chegávamos! E sempre, sempre, esse afecto genuíno, essa cumplicidade partilhada, esse entendimento transcendente e sem explicação.
Não sei quantos meses, mas o tempo passou como sempre passa o tempo nestas situações, veloz na falta de piedade e lento pela acção do sofrimento.

Não a querias largar, sinto ainda a força da tua mão direita na minha, a angústia do teu corpo depositada nela, o anseio nos teus olhos, o reflexo do medo. O coração batia-me, não queria que me visses chorar, cantava uma canção de ninar, duas, três, queria sossegar-te, a voz saía-me como um sopro, fica em paz, não tenhas medo, segue a luz.
E tu seguiste-a, que eu sei. De noite vieste ter comigo envolto nela, grande, numinosa! acordaste-me para te despedires e consolidares definitivamente esta certeza profunda que se tornou a minha âncora no eterno.
Os anjos existem.

06/04/2008

Gatarela

O gato empoleirado no muro preguiça solarengo. A cabeça erguida em direcção ao rio, os olhos semicerrados pela luz, rrrooommm. Olho-o fixamente, centro-o no meu pensamento, chamo-lhe a atenção. Ele vira a cabeça e fita-me. Ficamos assim os dois parados neste sossego, entre o óbvio e a incompreensão. Há um merge; ele entra no meu mundo e eu no dele. Ele humano, eu felina. Comunicamos assim sobre o irreal de ambos os universos. Ele agora tem braços compridos que estende em direcção a mim, envolvendo-me num aconchego peludo. Involuntariamente sinto a minha língua áspera a passar pelos meus bigodes. Não falo, ronrono. Gozo a metamorfose, arqueio-me e estico-me prazeirosa. Sinto o movimento e a leveza de cada vértebra a ocupar o seu lugar. Ele passa as garras pelo meu dorso, pela minha cabeça, sussurrando pch, pch, pch. Eu oiço peixe, peixe, peixe... As minhas narinas gulosas sentem esse aroma no ar... alguém está a grelhar o meu almoço, rroommm... De repente, um grito infantil, estridente! Os braços felinos encolhem-se no retomar da sua forma original; a minha língua amacia, o meu ronronar faz-se suspiro. Tique taque, tique taque, neste universo há horas para tudo. Ao meio-dia tudo volta ao seu lugar.

18/03/2008

A passagem

- Onde vais?
- Para a terra da passagem.
- Da passagem?
- É aquele lugar onde não estamos mas
nos sentimos estar, entre a vigília e o onírico.
- Onde tudo acontece? Onde podemos rever e reconstruir a nossa própria história?
- Sim, isso é a arte, a arte de sonhar!
- Quero ir contigo!
- Mas há um risco...
- Qual?
- O de ires atrás das quimeras e caíres, sem conseguires voltar.
- Se me deres a mão muito forte eu não caio. É essa ligação que nos prende à primeira realidade.
- Como sabes isso?

- Aprendi com
Dom Juan... Ficas comigo?
- Sempre, a minha mão e a tua serão a mesma.

05/03/2008

Etnet

Consta que em criança Steven Spielberg vivenciou experiências com o sobrenatural. Ao que parece, o seu primeiro filme Firelight, feito na adolescência, já mostrava sinais disso. De igual modo, o seu interesse e conhecimento de causa são notórios nos filmes Encontros Imediatos de Terceiro Grau, ET e Casper. Não me espanta, é sintomático.
Daí à necessidade de criação de um espaço de partilha, destinado a todos os que vivenciaram este tipo de experiências, ou que simplesmente têm interesse por extraterrestres, ovnis e outros fenómenos, foi um passo. Essa rede está em construção na internet. Vou ficar atenta.