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20/06/2008

O dia em que a borboleta voou

Faz hoje três anos. O meu irmão chegou junto de nós e lemos-lhe o olhar. Abraçámo-nos os quatro em círculo e ele disse com um sorriso triste mas tranquilo "A borboleta já voou". Foi o último a estar com ela.
Ali, naquela maca do S.O., ela esperou o seu bem amado, o mais novo, o único rapaz, e na sacralidade da pequena intimidade que tanto pedimos e que as circunstâncias permitiram, foi ele quem a ajudou e a viu partir.
Guardo desse momento uma lembrança de alívio, de justiça, de bonomia. Nunca me revoltei com a sua morte. Antes pelo contrário, considerei-a uma benção. O que me revoltou foi o seu sofrimento, a forma como foi descurada nos últimos dias (coincidentes com um fim-de-semana), sem ter sido monitorizada 24 sobre 24 horas, como seria de esperar. Era doente cardíaca e apesar de estar a ser minada por metástases, o que a matou foi um enfarte.
Digo, com a comoção e a apreensão do que sei que motiva um ser nos seus momentos terminais, que a morte pelo coração foi o seu derradeiro acto de Amor. Foi esse acto de amor que lhe permitiu ser transferida de uma enfermaria tumultuosa para o S.O., onde a sua morte não foi espectáculo, nem prato cheio para voyeuristas, mas antes pelo contrário, onde pôde partir com a dignidade, a privacidade e a sacralidade que merecia e que nos era a todos tão cara.
Há três noites sonhei com ela e percebi que este ciclo terminou. Alcançou o inatingível.
Para sempre, a eternidade.

16/06/2008

O mestre e o escorpião

Um mestre oriental viu que um escorpião estava a afogar-se e decidiu tirá-lo da água; mas quando o fez, o escorpião picou-o. Reagindo à dor, o mestre soltou o animal e ele caiu de novo à água, afogando-se. De novo o mestre tentou tirá-lo e mais uma vez o animal picou-o.
Alguém que estava a observar a cena aproximou-se do mestre e disse: "Desculpe-me mas o senhor é teimoso! Não vê que todas as vezes que tentar tirá-lo da água ele irá picá-lo?".

O mestre respondeu: "Ele age de acordo com a sua natureza. A natureza do escorpião é picar e isso não vai mudar em nada a minha natureza, que é ajudar".
Então, com a ajuda de uma folha o mestre tirou o escorpião da água e salvou-lhe a vida.

Não mudes a tua natureza se alguém te magoar; apenas toma precauções.

Autor desconhecido

09/06/2008

Limpeza étnica

Eles começaram por perseguir os comunistas
e eu não protestei, porque não era comunista.
Depois vieram buscar os judeus
e eu não protestei, porque não era judeu.
Depois ainda, vieram buscar os sindicalistas
e eu não protestei, porque não era sindicalista.
A seguir vieram buscar os homossexuais
e eu não protestei, porque não era homossexual.
Aí então vieram buscar os ciganos
e eu não protestei, porque não era cigano.
De seguida vieram buscar os imigrantes,
e eu não protestei, porque não era imigrante.
No final vieram buscar-me,
E já não havia ninguém para protestar.

Martin Niemöller

05/06/2008

A minha paixão

Tenho, sempre tive, um enorme fascínio pela história de Cristo. Foi ele a minha primeira paixão, este homem bom, pleno de Amor, idealista, um louco talvez, mas de uma loucura compassiva, que trouxe uma chama belíssima a este mundo. Imagino como tudo seria hoje muito mais selvagem e desumanizado, se de alguma forma a influência benéfica deste homem não estivesse quase atavicamente impregnada nos nossos corações.
Por isso quando se fala, se escreve, se produz sobre ele, eu fico sempre alerta, cheia de ansiedade e receio de que de alguma maneira (por via da escolha dos actores, da produção/encenação, etc.) seja adulterada a sua história e a sua imagem ou, melhor dizendo, a imagem que alimento da pessoa que creio ele tenha sido.
Depois de ter sido um sucesso de bilheteiras como opera rock em Londres e NY, em meados dos anos 70, o filme "Jesus Cristo Supertar" estreou em Portugal. Acho que nunca mais o larguei... vi-o uma dezena de vezes... , e decorei as músicas todas do princípio ao fim (naquele tempo havia tempo para isso), porque entretanto lá em casa comprámos o disco.
Ainda hoje me deleito quando ouço o CD, recordo as letras, as vozes, as entradas, a orquestra... Tenho-o gravado na minha pele, nos meus sentidos.
Por esta razão, quando me predispus a ir ver este espectáculo do La Féria, no Politeama, ía dividida entre o fascínio e a expectativa. Fascínio, porque adoro espectáculo, música, dança e, para além de tudo, ía assistir a mais uma versão da história do meu bem-amado; expectativa, porque tinha muito receio de que em nada as vozes, os actores, os cenários, as letras (ainda para mais traduzidas), correspondessem à fantástica obra original.
Digo-vos apenas que vim cheia. Assisti a um dos mais magníficos espectáculos de sempre, ao nível e em superação de qualquer espectáculo internacional que se possa ver por esse mundo fora.
Lembrei-me com grande saudade, da mesma emoção e entusiasmo juvenis ao assistir a outro musical sobre a vida de Cristo, "GodSpell" (também nos anos 70 em Portugal), protagonizado pelos jovens actores, então em início de carreira, Carlos Quintas, Joel Branco, Rita Ribeiro, Verónica, Vera Mónica...
Acredito na arte do espectáculo em Portugal e admiro o trabalho e talento de todos quanto a expressam com seriedade.

02/06/2008

Acreditar é preciso

"Não há impossíveis no que toca às capacidades extraordinárias do poder da nossa mente e de recuperação do nosso corpo físico. ACREDITEM..." (Salvador Vaz da Silva).

Ou
tubro de 2007. Após meses de insuportáveis dores de cabeça, tonturas e outros sintomas, SVS vai (arrastado por um amigo) ao médico e são-lhe diagnisticados cancros em estado muito avançado no cérebro e nos pulmões. Veredicto clínico: três semanas de vida e, se a radioterapia intensa a que se iria submeter de imediato resultasse em pleno, seis meses, no máximo.
Na impossibilidade de comunicar com os milhares de pessoas com quem se relaciona, SVS criou um blogue onde diariamente passou a dar conhecimento sobre o ponto de situação da sua doença.
A forma incrivelmente positiva com que se empenhou na luta pela sua cura e a forma como a foi descrevendo no blogue
salvadorvazdasilva.blogspot.com, fez com que este se tornasse rapidamente num enorme fenómeno de popularidade, extravasando em muito o alargado universo dos seus familiares e amigos.
Passados seis meses, e perante o espanto dos médicos que para tal não encontram explicações científicas, SVS escreveu o último post no seu blogue, no qual confirmou a erradicação total dos vários tumores cerebrais e pulmonares que lhe ameaçaram decisivamente a vida.
Para trás ficaram seis meses de um diário feito na base de cerca de 200 posts e milhares de comentários, transmitidos num original blogue que passou a ser espontâneamente conhecido por
"
Catedral". Um blogue - agora um livro - que é um diário de uma fantástica luta, transformada numa verdadeira lição de esperança e fé para todos os que se encontram perante as maiores adversidades da vida.
O valor de direitos de autor, acrescidos de uma parte da receita de vendas da Prime Books, reverterão integralmente a favor do IPO. Prefácio da cantora Mariza.


(Informação recebida por e-mail sem indicação da fonte.)

30/05/2008

Demito-me

Venho por este meio apresentar oficialmente o meu pedido de demissão da categoria dos adultos.
Resolvi que quero voltar a ter as responsabilidades e as ideias de uma criança de oito anos, no máximo.
Quero acreditar que o mundo é justo, e que todas as pessoas são honestas e boas.
Quero acreditar que tudo é possível.
Quero que as complexidades da vida passem despercebidas por mim e quero ficar encantada com as pequenas maravilhas deste mundo.
Quero de volta uma vida simples e sem complicações. Estou cansada de dias cheios de computadores que falham, montanhas de papelada, notícias deprimentes, contas a pagar, intrigas, doenças, e necessidade de atribuir um valor monetário a tudo o que existe.
Não quero mais ter que inventar maneiras de fazer o dinheiro chegar até o dia do próximo pagamento.
Não quero mais ser obrigada a dizer adeus a pessoas queridas e, com elas, a uma parte da minha vida.
Quero ter a certeza de que Deus está no céu e que por isso tudo está direitinho neste mundo.
Quero ir ao McDonalds ou à pizzaria da esquina e achar que é melhor do que um restaurante cinco estrelas.
Quero viajar ao redor do mundo no barquinho de papel que vou fazer navegar numa poça deixada pela chuva.

Quero atirar pedrinhas à água e ter tempo para olhar as ondas que elas formam.
Quero achar que as moedas de chocolate são melhores do que as de verdade, porque podemos comê-las e ficar com a cara toda lambuzada.
Quero ficar feliz quando amadurece a primeira nespereira ou a primeira ameixoeira, quando a laranjeira fica carregadinha de fruta.
Quero poder passar as tardes de Verão à sombra de uma árvore, construindo castelos no ar e dividindo-os com meus amigos.
Quero voltar a achar que chicletes e gasosas são as melhores coisas da vida.
Quero que as maiores competições em que eu tenha de entrar sejam um jogo de berlinde ou uma futebolada...
Eu quero voltar ao tempo em que tudo o que eu sabia era o nome das cores, a tabuada, as cantigas de roda, "As Pombinhas da Catrina" e a "Avé Maria" e isso não me incomodava nadinha, porque eu não tinha a menor ideia de quantas coisas eu ainda não sabia...
Quero voltar ao tempo em que se é feliz, simplesmente porque se vive na bendita ignorância da existência de coisas que podem preocupar-nos e aborrecer-nos.
Quero acreditar no poder dos sorrisos, dos abraços, das carícias, das palavras gentis, da verdade, da justiça, da paz, dos sonhos, da imaginação, dos castelos-no-ar e na areia.

E o que mais quero é estar convencida de que tudo isso vale muito mais do que o dinheiro!
Por isso, tomem aqui as chaves do carro, a lista do supermercado, as receitas do médico, o livro de cheques, os cartões de crédito, o contra-cheque, os crachás de identificação, as contas a pagar, a declaração de impostos, a declaração de bens, as passwords do meu computador e das contas no banco, e resolvam as coisas como bem quiserem.
A partir de hoje isto é com vocês, porque eu DEMITO-ME da vida de adulto.
Vou voltar a ser feliz, a ter sonhos de criança, a ver o mundo com os olhos inocentes de quem acredita no Pai Natal e na fada dos dentes... Viver um sonho...

Autor desconhecido

26/05/2008

O gosto de te ver feliz

O senhor Ed chamou o cachorro Fritz e o gato branco e disse-lhes que pedissem às gaivonhas e à cegota o favor de dizerem aos bois de pelo dourado, às vacas malhadas e às ovelhas pura lã que se juntassem, pois iriam ser acompanhados pela incansável orquestra composta por chilreios esvoaçantes, ondas adormecendo nas rochas, chocalhos leves e vibrantes, zumbidos harmoniosos de insectos, chuva morna banhando a planície e o suave crepitar da lareira, no agradecimento pela cumplicidade de estarmos inequivocamente unidos neste gosto de te ver feliz.

Descubra as diferenças

Quando o dólar é mais forte do que o euro, o preço dos combustíveis aumenta.
Quando o euro é mais forte do que o dólar, o preço dos combustíveis aumenta.

21/05/2008

Homem de Maio



Hoje é o dia dele, é a festa do meu amor perfeito,

desse homem bonito florido na doçura de Maio!

20/05/2008

Gambosinos

Há quatro anos atrás, no Aquário Vasco da Gama, vi Gambosinos. Quando ocasionalmente comentava este facto com os meus interlocutores, eles olhavam-me com ar de gozo e sentia-lhes o pensamento "que tonta, espera que eu acredite...". Mas quem não sabe e não tem humildade, duvida sempre do conhecimento dos outros, por isso foi sempre para o lado que eu dormi melhor. Eu tinha visto gambosinos e ponto final.
Ontem, em conversa, lá surgiram eles outra vez...
Por isso partilho aqui o pouco que sei. Gambosino é o nome popular que se dá em Portugal a um peixe, mais exactamente o Gambusia Affinis Holbrooki, que é considerada uma espécie invasora. As imagens são do site
www.aquariofilia.net.

Também no Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências há um aquário com Gambosinos. Ver para crer...

13/05/2008

Normose

O coração é um dos símbolos do centro vital (...), o coração é o centro da relação.
Colocamos em ressonância esta parte do nosso corpo com as relações que podemos ter, não somente com nossa família e com os sonhos que a nossa família tem para connosco, mas também com os sonhos e as imagens que a sociedade pode ter para connosco. Às vezes estas imagens são coleiras de ferro no nosso pescoço. Estamos como que aprisionados às imagens que os outros têm de nós mesmos. Isso nos impede de respirar livremente e de deixar nosso coração bater tranquilamente. Isto gera uma tensão, uma crispação, que pode ser a origem de doenças graves (...).
Às vezes sentimo-nos sufocar. Não correspondemos à imagem que os outros têm de nós, seja a nossa família, seja a sociedade. Se não quisermos adoecer (...) temos que ter a coragem de sair destas representações (...). Ao lado da psicose, ao lado na neurose, temos a "normose". Para alguns de nós, querer ser normal a qualquer preço, querer ser como todo o mundo, pode ser fonte de doenças. Porque estamos entravados no nosso desejo mais íntimo.
.
Jean-Yves Leloup, in "O Corpo e os Seus Símbolos"

09/05/2008

Vida

Estamos mortos antes de sermos concebidos e começamos a morrer depois de o sermos. A este brevíssimo circuito entre mortes chamamos vida.
A vida é um curto circuito cósmico.

08/05/2008

Mobbing

"O “mobbing” ou assédio moral no trabalho é responsável por um quinto dos suicídios entre a classe trabalhadora, de acordo com uma investigação de Iñaki Piñuel, professor de Psicologia na Universidade de Alcalá de Henares, em Espanha.
Num livro de auto-ajuda para vítimas, agora publicado, o catedrático defende que o “mobbing” afecta um em cada seis trabalhadores e que 70% destes não têm noção de estar a ser alvo de agressões no local de trabalho.
Em Espanha, segundo o autor, esta “epidemia organizacional do século XXI” atinge 15% da população activa, num total de 2,3 milhões de pessoas.
E em Portugal? "
Jornal de Negócios - Agosto, 20, 2003

Frequentemente nem nós nos apercebemos de que estamos a ser assediados moralmente. Só quando começamos a ter sintomas depressivos ou fóbicos é que tomamos consciência de que algo de errado se passa. Excluindo as situações mais óbvias, em que a empresa vai retirando trabalho ao trabalhador forçando a que o mesmo se despeça, ou casos em que os superiores hierárquicos agridem verbalmente os funcionários, ou depreciam constantemente o seu trabalho, destruindo por completo a sua auto-estima, existem outras formas de pressão e desmoralização mais subtis (no caso das mulheres, primam pela descriminação), que poderão não ser identificados por terceiros e que só o próprio lesado poderá perceber através de uma avaliação das suas emoções face ao "agressor". Entre outros, sentimentos profundos de frustração, marginalização, fobia e baixa auto-estima, que não se manifestavam anteriormente e que não advenham de questões do foro pessoal/familiar, poderão eventualmente ser indicadores de "mobbing".
Se é verdade que todos precisamos de trabalho para garantir a nossa subsistência, também é verdade que as instituições precisam de nós para se desenvolverem e gerarem proveitos. É desta necessidade recíproca que surge o contrato de trabalho, conferindo direitos e obrigações a ambas as partes.
É saudável considerarmos este aspecto de "troca" nas nossas vidas profissionais, para que não nos sintamos escravos de uma necessidade. Ao olharmos para o nosso trabalho sob um ponto de vista esclavagista, estamos imediatamente a desvalorizarmo-nos. Inconscientemente assumimos e passamos essa imagem, permitindo a ocorrência de situações de desrespeito, humilhação e abuso de autoridade. Ao contrário, se mantivermos uma postura respeitosa para com nós próprios, dignificando o nosso papel, seremos tratados de forma correspondente.
Naturalmente, face às dificuldades no mercado de trabalho, o receio de despedimento é constante, o que nos torna muito vulneráveis. Esta circunstância conduz-nos à passividade e ao receio do confronto, levando-nos a calar uma série de situações desconfortáveis, conferindo ao "agressor" um poder que na realidade ele não tem.
Temos, no entanto, que estar alertas para o facto de esse "calar" poder trazer-nos, com o passar do tempo, distúrbios emocionais sérios. O que não manifestamos, somatizamos.
O ideal seria todos nós lidarmos serenamente com os que nos afrontam. No momento certo, intervir com sinceridade e educação, é uma arma desarmante.
No entanto, nem todos temos a mesma forma de gerir os conflitos. Alguns optam pela via acusatória e conflituosa, de todo infrutífera.
Devemos ter sempre o cuidado de manifestar o que sentimos de uma forma assertiva, ao invés de optar por uma espiral acusatória e bélica.
Por outro lado, do ponto de vista humano, temos que ter a compreensão para perceber que muitas vezes o "agressor" também é vítima. Vítima de si mesmo, ou de situações pessoais e familiares complicadas. As suas atitudes agressivas são frequente e simultaneamente defensivas. Agride para não ser agredido, para se sentir mais forte, para esconder a sua fragilidade, ou simplesmente porque também está a ser pressionado. Alguns, infelizmente, são mesmo vítimas de psicoses graves.
Urge aprendermos a distanciarmo-nos emocionalmente dessas pessoas, para que não sucumbamos às suas manipulações. Só o distanciamento e a compreensão poderão manter-nos saudáveis e, quem sabe, até conseguirmos ajudá-las.
Lembremo-nos que, independentemente das diferenças, todos somos igualmente frágeis, todos temos inseguranças e receios, e todos nós precisamos de atenção e conforto emocional.